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Selic a 15% não garante retorno: recuperações judiciais alertam investidores

Com empresas enfrentando dificuldades para pagar dívidas, especialista explica por que até investimentos considerados conservadores podem sofrer e aponta diversificação como proteção para a carteira

Gabriel Magalhães, sócio-fundador e estrategista-chefe da Aliá Partners.

Com empresas enfrentando dificuldades para pagar dívidas, especialista explica por que até investimentos considerados conservadores podem sofrer e aponta diversificação como proteção para a carteira

Com juros elevados, a renda fixa ganhou ainda mais espaço entre investidores atraídos pela possibilidade de retornos elevados com menor volatilidade. Mas há uma diferença importante entre a taxa oferecida por um investimento e o resultado que efetivamente chegará ao bolso do investidor. O aumento de empresas recorrendo à recuperação judicial chama atenção justamente para um risco que pode passar despercebido em períodos de juros altos: o risco de crédito.

Para Gabriel Magalhães, sócio-fundador e estrategista-chefe da Aliá Partners, o investidor precisa entender que o mesmo ambiente de juros elevados que torna a renda fixa mais atrativa também aumenta a pressão financeira sobre empresas endividadas.

“Uma Selic a 15% talvez não signifique 15% para o investidor. Quando os juros sobem, alguns negócios enfrentam dificuldades e isso pode atingir a carteira de alguma forma. Um evento de crédito pode fazer uma carteira que estava projetada para render 15% entregar 13% ou 12%. O investidor precisa considerar também os problemas que juros nesse patamar trazem para as empresas”, explica.

Um desses eventos pode ser a recuperação judicial. Apesar de muitas vezes ser associada imediatamente à falência, a RJ é um instrumento utilizado justamente na tentativa de permitir que uma empresa continue operando enquanto renegocia as obrigações com os credores.

Para quem possui títulos de dívida daquela companhia, isso também não significa necessariamente que todo o dinheiro investido foi perdido.

“Recuperação judicial não é sinônimo de falência. A empresa está tentando renegociar suas dívidas para continuar funcionando e conseguir honrar seus compromissos. Para o investidor que é credor, isso pode significar mudança de prazo, taxa, vencimento ou até do valor a receber, dentro de um processo que passa pela negociação e aprovação dos credores”, explica Gabriel.

O episódio, entretanto, muda a percepção de risco daquele investimento. Um ativo adquirido originalmente como uma aplicação conservadora pode passar a exigir do investidor uma postura diferente depois da deterioração financeira da empresa emissora.

“Talvez o maior desconforto seja perceber que algo que era considerado conservador se tornou mais arriscado. Renda fixa não significa garantia de 100%. Em um ativo de boa qualidade, a probabilidade de um problema pode ser pequena, mas ela existe. Quando acontece, aquele investimento precisa ser administrado dentro da carteira como um ativo que está passando por um momento de estresse”, afirma.

É justamente nesse ponto que a diversificação ganha importância. Segundo Gabriel, um único problema de crédito não deveria ser capaz de comprometer toda a estratégia financeira de um investidor.

“Um evento de crédito não pode significar a ruína de um portfólio. A diversificação existe também porque boas empresas podem enfrentar problemas. O tamanho de cada posição precisa ser compatível com o risco daquele ativo. Assim, quando uma situação inesperada acontece, ela representa uma parcela administrável da carteira e não compromete todo o patrimônio”, destaca.

A recuperação judicial também pode exigir concessões dos credores para aumentar as possibilidades de continuidade da empresa. Na prática, quem investiu em um título de renda fixa corporativa emprestou dinheiro à companhia e passa a participar da renegociação desse crédito conforme as regras aplicáveis ao processo.

“É semelhante a emprestar dinheiro e depois o devedor pedir mais prazo ou uma renegociação porque não consegue cumprir as condições originais. O investidor pode precisar abrir mão de uma parte das condições contratadas para aumentar a possibilidade de a empresa continuar existindo e pagar o restante da dívida”, explica o estrategista.

Apesar do alerta, Gabriel avalia que o cenário não significa que o investidor deva abandonar a renda fixa. Os juros elevados continuam oferecendo uma margem relevante de retorno, mas exigem atenção à qualidade dos emissores e à composição da carteira.

“O investidor não deveria olhar apenas para a taxa e pensar que 15% estão garantidos. Pode haver eventos ao longo do caminho. Mesmo que uma carteira termine entregando 12% ou 13% depois de enfrentar algum problema de crédito, ainda é preciso analisar esse resultado dentro do contexto histórico e comparar o risco assumido com outras classes de ativos. A questão central é construir uma carteira preparada também para quando alguma coisa não sair como previsto”, conclui Magalhães.

@aliapartners