Juros altos levam empresários a usar consórcio na estratégia patrimonial

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Com Selic em 14,25% e crédito bancário mais seletivo, cresce a demanda por ativos ligados ao poder de compra futuro e consórcios têm alta de 32,1% em 2025

Com a taxa Selic em 14,25% ao ano e um ambiente de crédito mais restritivo, empresários brasileiros vêm revendo a forma como estruturam o próprio patrimônio. Além da divisão tradicional entre renda fixa, renda variável e imóveis, cresce o interesse por ativos ligados ao poder de compra futuro, movimento que tem levado o consórcio a ocupar um novo espaço nas estratégias patrimoniais.

Os números acompanham a mudança. Segundo a ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios), o sistema movimentou R$500,27 bilhões em créditos comercializados ao longo de 2025, crescimento de 32,1% sobre os R$378,73 bilhões do ano anterior. No mesmo período, foram vendidas 5,16 milhões de cotas, alta de 15,0%, enquanto o número de participantes ativos alcançou 12,76 milhões em dezembro.

A expansão continuou em 2026. Apenas no primeiro trimestre, os créditos comercializados somaram R$129,16 bilhões, alta de 22,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O tíquete médio também subiu, chegando a R$97,48 mil em março, avanço de 14,5%, indicativo de maior procura por operações de valor mais elevado.

Para Isadora Landi, fundadora da Landi Investimentos e especialista em estratégias patrimoniais com consórcios, esse crescimento acompanha uma mudança de comportamento do empresariado brasileiro.

“Durante muito tempo o consórcio foi visto apenas como uma forma de comprar um bem sem recorrer ao financiamento. Hoje percebemos empresários utilizando o crédito de forma muito mais estratégica, como parte do planejamento patrimonial da empresa e da família”, afirma.

Segundo ela, o cenário econômico acelerou a transformação. Além do custo maior, bancos passaram a adotar critérios mais rigorosos de aprovação, o que reduz o acesso de parte relevante dos tomadores.

“Com juros elevados, o crédito bancário ficou mais caro e mais seletivo. Quando isso acontece, passa a fazer diferença já ter capacidade de compra contratada. O empresário deixa de depender exclusivamente das condições que o mercado financeiro oferece naquele momento”, diz.

O crédito como ativo estratégico

Uma das principais mudanças está na forma como o crédito passou a ser percebido. Em vez de enxergar o consórcio apenas como modalidade de aquisição parcelada, parte dos investidores passou a tratá-lo como instrumento de planejamento de longo prazo, capaz de ampliar alternativas para aquisição de patrimônio e execução de projetos.

“Quem administra uma empresa sabe que oportunidade nem sempre aparece quando o caixa está preparado. Muitas vezes ela surge antes. Ter crédito previamente contratado significa ganhar previsibilidade e ampliar a capacidade de decisão”, afirma Isadora.

Ela explica que algumas operações são estruturadas com mais de uma carta de crédito, formando uma reserva de capacidade de compra a ser utilizada conforme o planejamento do empresário.

Em determinadas situações, após a contemplação, também pode ocorrer a cessão dos direitos da carta a terceiros, desde que haja aprovação da administradora e observância das regras do grupo, conforme previsto na Lei 11.795/2008. A demanda por cartas contempladas decorre da busca por acesso mais rápido ao crédito em períodos de maior restrição financeira.

Formação de patrimônio

Outra aplicação recorrente está na aquisição de imóveis destinados à geração de renda. Segundo Isadora, empresários têm utilizado cartas contempladas para construir patrimônio de longo prazo, transformando imóveis em ativos capazes de gerar receita por meio de locação.

“A lógica deixa de ser simplesmente comprar um imóvel. O foco passa a ser construir um patrimônio que continue produzindo renda ao longo dos anos. É uma visão patrimonial, não apenas de consumo”, afirma.

Ela ressalta que esse tipo de estratégia exige planejamento financeiro, conhecimento do funcionamento do sistema e horizonte de longo prazo. O prazo de contemplação, a vacância do imóvel e a inadimplência do locatário permanecem como variáveis relevantes da operação.

“Consórcio não elimina riscos nem substitui outras modalidades de investimento. O que mudou foi a forma como empresários passaram a inseri-lo dentro de uma estratégia patrimonial mais ampla”, diz.

Diversificação além dos ativos financeiros

O ambiente de juros elevados também tem levado empresários a buscar formas de reduzir a dependência exclusiva do crédito bancário e ampliar a diversificação patrimonial. Nesse contexto, o consórcio passou a ser considerado por parte do mercado um instrumento complementar às aplicações financeiras tradicionais, sobretudo pela previsibilidade na formação de capacidade de compra ao longo do tempo.

“O empresário moderno não pensa apenas em onde aplicar recursos. Ele também pensa em como garantir acesso a crédito quando surgir uma oportunidade de expansão ou aquisição de patrimônio. Essa mudança de mentalidade explica boa parte do crescimento do setor nos últimos anos”, afirma Isadora.

O consórcio não é investimento financeiro regulado e não envolve promessa de rentabilidade. Ainda assim, seu uso dentro do planejamento patrimonial tende a ganhar relevância enquanto o crédito bancário permanecer caro e restritivo. A ABAC projeta expansão de até 11,0% para o sistema em 2026.

Para a fundadora da Landi Investimentos, a principal transformação não está no produto, mas na forma como ele passou a ser utilizado.

“O consórcio continua sendo uma ferramenta de planejamento. O que mudou foi a visão do empresário. Cada vez mais ele deixa de ser visto apenas como uma alternativa ao financiamento para assumir um papel dentro da estratégia de construção patrimonial”, conclui.

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