por que a história de vida influencia a forma como empreendedores enfrentam crises
Empreender exige capacidade de adaptação, resiliência e tomada rápida de decisões. Mas, por trás da imagem do líder preparado para enfrentar desafios, existe uma realidade pouco discutida: a saúde mental de quem está à frente dos negócios. Em um cenário de pressão constante, incertezas financeiras e responsabilidade sobre equipes inteiras, especialistas alertam que o comportamento do empreendedor diante das adversidades nem sempre é explicado apenas pelo momento atual da empresa. Muitas vezes, a resposta está em experiências vividas muito antes da abertura do primeiro negócio.
Os números reforçam a dimensão do problema. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, o maior número da série histórica do INSS e um crescimento de 67% em relação ao ano anterior. Embora a discussão costume se concentrar nos trabalhadores formais, estudos recentes revelam que os empreendedores também fazem parte de um grupo altamente vulnerável.
Uma pesquisa realizada pela Endeavor Brasil em parceria com o BID Lab, que ouviu 118 fundadores de startups e empresas de alto crescimento, apontou que 94,1% dos entrevistados já enfrentaram pelo menos uma condição adversa relacionada à saúde mental durante sua trajetória empreendedora. Ansiedade foi relatada por 85,6% dos participantes, seguida por burnout (37%), ataques de pânico (22%) e depressão (21%).
Para a médica pós-graduada em Psiquiatria, Dra. Beatriz Zaramella, especialista em Medicina do Estilo de Vida por Harvard, esses números revelam apenas parte do cenário.
“Quando falamos sobre saúde mental do empreendedor, normalmente as orientações ficam restritas a recomendações importantes, como dormir melhor, praticar atividade física ou fazer terapia. Mas existe uma pergunta anterior que poucas pessoas fazem: por que duas pessoas passam pela mesma crise empresarial e reagem de maneiras completamente diferentes?”, explica.
Segundo a psiquiatra, a resposta envolve o funcionamento do cérebro e a forma como cada indivíduo construiu seus mecanismos emocionais ao longo da vida.
“Situações de estresse precoce podem deixar alterações duradouras na forma como o cérebro interpreta ameaças e regula as emoções, influenciando a maneira como lidamos com perdas, incertezas e pressão na vida adulta. Isso significa que, muitas vezes, o empreendedor acredita estar reagindo apenas aos problemas da empresa, quando, na verdade, também está respondendo a padrões emocionais construídos ao longo da vida.”
Essa relação também tem sido observada em pesquisas científicas. Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) identificou que experiências intensas de estresse durante a infância estão associadas a alterações persistentes em circuitos cerebrais relacionados ao processamento de recompensa e perda. Mesmo anos depois, esses padrões podem continuar influenciando decisões e respostas emocionais, independentemente do nível atual de estresse.
Na prática, esse mecanismo ajuda a compreender comportamentos comuns no ambiente empresarial, como dificuldade extrema para demitir colaboradores, sensação constante de catástrofe diante de oscilações financeiras, impulsividade nas decisões ou necessidade excessiva de controle.
“Nem toda reação intensa é falta de preparo ou incompetência. Muitas vezes, ela representa uma tentativa automática do cérebro de proteger a pessoa de uma ameaça que ele interpreta como muito maior do que realmente é”, afirma Dra. Beatriz.
O impacto desse funcionamento não fica restrito ao empreendedor. A forma como um líder administra suas emoções influencia diretamente a cultura organizacional, o clima entre os colaboradores e até os resultados financeiros da empresa.
“Um líder emocionalmente sobrecarregado tende a tomar decisões mais impulsivas, comunicar-se pior e transmitir insegurança para toda a equipe. A saúde mental de quem lidera deixa de ser uma questão individual e passa a ser um fator estratégico para qualquer negócio.”
O tema ganha ainda mais relevância diante do cenário brasileiro. Além do aumento histórico dos afastamentos por transtornos mentais, o país aparece entre os mais afetados por transtornos de ansiedade no mundo. Estimativas de organizações internacionais indicam que os impactos econômicos relacionados aos transtornos mentais representam uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB), refletindo os custos com perda de produtividade, afastamentos do trabalho e redução da qualidade de vida.
Para Dra. Beatriz Zaramella, compreender o funcionamento do cérebro não significa buscar culpados pelo sofrimento emocional, mas oferecer ferramentas para transformar padrões que podem comprometer tanto a saúde quanto o desempenho profissional.
“Alta performance não é viver sob estresse permanente. Pelo contrário: quanto maior a capacidade de regular as próprias emoções, maior a clareza para tomar decisões difíceis, liderar pessoas e enfrentar crises sem que o cérebro permaneça em estado constante de ameaça. Cuidar da saúde mental deixou de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passou a ser uma estratégia essencial para a sustentabilidade dos negócios.”
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